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Blog Izyncor

A Fórmula do Pai Improvável

A série The Last of Us, da HBO, tem feito um sucesso absurdo não só pela qualidade técnica impecável e pelas atuações absurdas, mas por toda a legião de fãs do game de mesmo nome. Mas por que uma série sobre zumbis (chamem do que quiserem; na prática, são zumbis, sim) pode ser tão fascinante? A resposta talvez seja a mesma do sucesso inicial de The Walking Dead: o foco nas relações humanas, deixando os monstros como plano de fundo. Mas eu iria além. O que torna The Last of Us tão memorável é a construção do relacionamento de dois personagens quebrados como pai e filha improváveis. A cultura pop já percebeu o quanto a fórmula é infalível.

Sim, existem outros vários exemplos de sucesso desse tipo de relação. Mais recentemente, temos o icônico personagem Kratos (God of War), o deus da guerra, sendo obrigado a lidar com a  , instigante. E qual filme da franquia de do Wolverine foi o mais emocionante? Logan, claro, pelos mesmos motivos do exemplo anterior. E a inspiração na fórmula de The Last of Us é inegável, neste caso.

Outro filme que me marcou bastante é The Rover – A Caçada, da A24, protagonizado por Robert Pattinson. No enrendo, há um jovem inocente em um futuro pós-apocalíptico sequestrado pelo personagem de Guy Pearce, um homem sem nada a perder que deseja recuperar o carro roubado pelo irmão do rapaz. Apesar de não haver ligação direta de paternidade, fica implícito que essa é a relação entre os dois protagonistas. Ambos vão transformando um ao outro durante a jornada, se conectando cada vez mais.

Existe ainda Pig, com Nicholas Cage, além de The Mandalorian, com Pedro Pascal (que também faz Joel na série da HBO) e outros filmes e séries na mesma pegada; de menor sucesso talvez, mas com a mesma fórmula. E eu sou um dos grandes fãs desse tipo de relação. Joel, Kratos e Logan são personagens com um passado sombrio, marcado pela violência; tudo é deixado para trás para proteger seus “filhos”. O homem turrão, violento, acostumado a resolver tudo na base da porrada se conectando a alguém que é – ou tem idade para ser – seu filho ou filha, mostrando um lado frágil e protetor, é lindo. Mas vamos concordar que o fascínio por essa figura paterna é problemático.

 

 

O pai emocionalmente distante, mas capaz de fazer tudo pelo filho, é extremamente comum no seio familiar. Sem falar nos casos de abandono ou no distanciamento da figura paterna devido à separação. A mãe, em geral, é quem fala “eu te amo”, tem as conversas difíceis e é mais flexível com os problemas. Claro, sem generalizar. Obviamente, há casos opostos. Mas convenhamos: daddy issues é mais comum do que mommy issues. Quando os pais fazem coisas naturais para as mães, como brincar, passear, participar, são superpais, paizões.

No final, todos queremos uma figura paterna protetora, que se importe. E buscamos a catarse em livros, filmes, séries, jogos. Identificamo-nos, ou ao menos desejamos ter a mesma conexão. O problema é que, na vida real, a falta de demonstração afetiva e, muitas vezes, a violência são aceitas como normais. No final das contas, proteger é a única coisa relevante? Seriam Joel, Kratos e Logan bons pais ou figuras paternas?

 

Não sei. Porém, como pai, sacrificaria a própria vida ou o mundo inteiro pela minha filha. Por isso, cenas de sacrifício pelos entes queridos me tocam tanto. E é inegável que sou um pai imperfeito, como quase todos. É o poder da ficção de espelhar nossos sentimentos. Em um mundo onde a masculinidade tóxica é a regra, talvez seja tão difícil para os pais de carne e osso quanto para os fictícios demonstrar o básico, que é o amor. Como fala

a canção do Legião Urbana, Pais e Filhos: “Você me diz que seus pais não lhe entendem, mas você não entende seus pais”. Ao fim de tudo, em seu mundo pós-apocalíptico, Joel conseguiu aproveitar a relação de pai e filha com Ellie para aprender que “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Porque se você parar pra pensar, na verdade, não há”.

Se a fórmula vai se tornar clichê, não sei. Por enquanto, deixa a gente se emocionar.

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