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Tudo de novo, em outro lugar

“Tudo de Novo, em Outro Lugar” é o primeiro conto da série A Sombra do Condenado, de Jader Miani.

Este conto contém cenas com descrições de violência física. Não é recomendado para menores de 16 anos.

Tudo de novo, em outro lugar

O casal saiu da taverna cantando. O homem sorria por dispor de algumas moedas de prata, e a mulher, por guardá-las no bolso do vestido. Desde sua chegada ao pequeno povoado, ela nunca vira tantos homens carregando tanto para gastar. Com os quartos todos ocupados, convenceu o cliente de irem até o estábulo nos fundos do terreno.

O Estranho acompanhou o casal à distância, vestia uma capa escura de couro que o protegia da chuva e mesclava sua silhueta às sombras. Aguardou os dois entrarem e se esgueirou até a porta. O viajante tentou beijar a mulher e, em um só movimento, ela se esquivou e abaixou as calças dele.

“Você não é mais o mesmo”, sussurrou a voz ao Estranho. Ele ignorou.

Com o tempo, aprendeu a colocá-la em um recanto isolado da mente, mas a dúvida sobre os pensamentos era frequente. Será que o mundo precisava dele? Talvez fosse melhor deixar as coisas serem como são.

Os primeiros gemidos falsos de prazer espantaram o breve devaneio. Preciso acabar com isso, pensou o Estranho. O destino daquela mulher era inevitável. O único motivo para esperar seria o alívio na consciência, mas há tempos também perdera qualquer esperança de redenção.

Aproximou-se com cautela pelas costas do viajante e o acertou na cabeça com o cabo do punhal. Devido à força ou ao álcool, o homem tombou antes de piscar. O agressor avançou e fechou as mãos na garganta da moça. Encarou o horror nos olhos dela enquanto sufocava seus gritos. A jovem sentiu o punhal atravessar por entre as costelas até perfurar seu coração.

O Estranho não conseguiu desviar o olhar do rosto suplicante. Rendeu-se à tristeza, e uma lágrima solitária escorreu pela face. Não sabia até quando suportaria o fardo de ceifar vidas inocentes; a obstinação diminuía a cada dia, e chegava a hora de sucumbir diante de toda a dor carregada.

Arrancou o punhal e limpou-o na roupa da pobre alma. Depois, retirou a capa de couro e enrolou-a na lâmina com cuidado. Antes de sair, pegou emprestado algumas moedas de prata do homem desmaiado. Guardou a capa em uma bolsa presa ao cavalo, entrou na taverna e sentou com alguns viajantes. Após duas rodadas de bebida, ninguém perceberia o rosto desconhecido no grupo.

***

O sol nasceu como sempre. Porém, pelo segundo dia no intervalo de uma semana, encontraram uma mulher sem vida. Ainda não havia qualquer sinal do culpado. Os boatos corriam rápidos, e logo o pânico se instalou: um assassino perambulava pela noite em busca de sangue quente.

Na tentativa de conter os ânimos, o Capitão do destacamento de dois soldados dissera aos moradores, um dia antes, que a primeira morte fora obra de um criminoso de guerra. Não há nada a temer, repetia ele. Contudo, no andar de baixo, o dono da taverna o aguardava, furioso. O Capitão desceu trajado a rigor, a tempo de ouvir o homem gritar aos soldados que seu superior era um covarde, mas era novidade ser também um mentiroso.

 O que aconteceu?  perguntou ao taverneiro.

 Fui dar comida aos cavalos e achei uma das meninas morta. Igual à outra, não é coincidência  respondeu ele, berrando e gesticulando, agitado. — Você tem que fazer alguma coisa!

 Primeiro, peço que abaixe o tom de voz. — O Capitão deu a volta e sentou-se. Apoiou os cotovelos na mesa.  Um dos soldados vai buscar o corpo, alguém da capital chegará em breve para ajudar.

O dono do estabelecimento cerrou os punhos, fechou o semblante e permaneceu imóvel.

 O senhor pode ir  ordenou o Capitão em tom ríspido.

 Espero não ficar sem putas até esse tal alguém chegar, ou o nobre Capitão vai dormir com as éguas  resmungou o taverneiro antes de sair batendo a porta.

O líder dos soldados corrigiu a postura e enterrou o rosto entre as mãos. Pensou e pensou, refletindo sobre qual dos dois homens iria enviar. Entre o imbecil capaz de perder o cadáver pelo caminho e o novato que desmaiaria ao ver o defunto, decidiu ir ele próprio.

Ao ver o corpo frio e sem vida da mulher, o Capitão poderia ter caído em desespero diante do problema em suas mãos. Em vez disso, foi tomado pela excitação de uma caçada. Naquela noite e nas próximas duas, ele foi à taverna. Sentou-se em um canto, bebeu e observou. A servente informou que dez viajantes tinham chegado nos últimos dias, mas metade fora embora na manhã do assassinato. Três dos forasteiros não foram vistos por ela na noite seguinte; então, restaram dois. Um era alto e forte, não mataria com uma estocada certeira no coração. O homem focou as atenções no outro, ordenou ao novato que o seguisse a todo momento. O culpado não tinha ido embora, algo lhe dizia isso. Ele atacaria de novo.

***

O Estranho acordou com uma bela ressaca, mas confiante de sua fuga. Não seria encontrado antes de acabar sua tarefa. A lua cheia seria em breve, o último ciclo. Apenas mais um, e iria embora para começar tudo de novo em outro lugar.

A lua crescente anunciou a próxima condenada. Ele viu a Sombra acima da menina, e o coração estremeceu com repulsa e ódio de si mesmo. Seguiu-a por três dias. Ela não tinha pais, fora criada por um ferreiro. O sujeito desprezível a tratava como um animal. Ainda assim, a garota carregava um sorriso permanente.

O ceifador poderia ter tirado a vida dela desde a noite em que a encontrou, mas não era mais o mesmo: a obstinação fora substituída pela resignação. Quem lhe deu direito de interferir nas coisas do mundo? Que tudo seja como deve ser! Mas também não se imaginava indo embora e abandonando o fardo. Fez aquilo durante a vida inteira, não havia nada lá fora além de carregar aquela tarefa maldita.

Faltando duas noites para a chegada da lua cheia, aguardou o ferreiro dar a ordem de buscar lenha à garota. O sujeito não conhecia piedade, raramente a deixava descansar. A menina foi até os fundos da propriedade, que fazia limite a um bosque. O Estranho a espreitava, com a capa de couro de tom esverdeado e escuro. A cor se misturava ao limo e à lama.

“Pensei que fosse desistir”, a voz sussurrou.

O homem retirou o punhal e aguardou a criança passar correndo em direção à pilha de lenha. Observou o corpo frágil se esforçando para carregar mais do que deveria. As pernas vacilavam, como gravetos sustentando um cavalo. Um alvo fácil, pensou. Porém, a culpa o fez hesitar.

“Você sabe o que vai acontecer se não fizer nada?” Era a coisa em seu ouvido de novo.

Esforçou-se para não dar atenção à voz. Jurou a si mesmo: era a última vez. Mais nenhuma criança teria o sangue derramado por suas mãos. Ao levantar, saindo da tocaia, mal deu dois passos e sentiu a pancada nas costas. As copas das árvores giraram como borrões turvados. O assassino arfou e guinchou; puxava o ar tentando respirar. A escuridão o abraçou.

Acordou em uma cela na qual três homens o observavam. O mais velho abriu a grade, entrou e lhe acertou um chute na face. O Estranho cuspiu sangue nas botas lustradas em retribuição.

 Não precisa agradecer por sua vida. A morte seria muito para um verme que merece apodrecer vivo  disse o Capitão ao virar-se satisfeito e fechar a cela.

O Estranho não tinha palavras; seria inútil tentar explicar, nunca acreditariam. O Capitão e um dos guardas deixaram a sala, restou apenas o que tinha cara de imbecil.

 Você tem que me soltar, armaram para mim  implorou o prisioneiro, agarrado à grade.

 Cala a boca! Você estava com a arma, não sou burro  respondeu o soldado.

O Estranho insistiu mais algumas vezes. Mas o sujeito, como todo estúpido, obedecia às ordens com perfeição. Não lhe restava alternativa: dormiu e aguardou. Por muitas vezes, temeu a chegada desse dia. Em vez de culpa pelo fracasso, encontrou paz consigo mesmo. O alívio preenchia o peito ao se livrar da responsabilidade de interferir no destino.

A primeira noite se foi, e dessa não passaria. O homem não se surpreendeu quando, no meio da madrugada, o caos irrompeu do lado de fora. Gritos de agonia e o farfalhar do fogo, o retrato do inferno parecia pintado nas ruas da pequena vila.

O imbecil apareceu, com o uniforme cheio de sangue, as mãos tremendo e os olhos congelados. O pobre coitado achou que, se seguisse ordens a vida toda, morreria sem ir de encontro ao demônio. Por azar ou ironia, um demônio o achou.

 Me tira daqui  gritou o Estranho.

Os dedos do soldado tremiam tanto que a chave não encontrava o caminho da fechadura. Afoito, o prisioneiro a tomou e abriu a cela.

 A criança é um demônio! O Capitão foi devorado vivo  disse o soldado, com os olhos fixos no vazio.

O Estranho o deixou definhando na loucura.

Lá fora, encontrou a lua cheia e a maldição que deveria evitar. Pessoas devoravam umas às outras, tripas eram arrancadas por mãos nuas e jogadas para o alto, junto de sangue e fezes. O novato arrastava a metade restante do Capitão, enquanto a atendente da taverna servia-se de um viajante. Em meio ao terror, a criança se aproximou e estendeu a mão. Aquilo o convidava para um passeio macabro. O Estranho ignorou o convite, e o inimigo se apoiou nas pontas dos pés para sussurrar em seu ouvido:

 Não fique triste, você é só um homem.

Ele olhou nos olhos daquele demônio e, com as duas mãos, sufocou o pequeno corpo até esmorecer. Em nenhum momento, a criatura desfez o sorriso infernal na face da criança.

O Estranho chegou ao vilarejo com a crença de que estava próximo de abandonar o fardo. Mas agora não restava esperança: ele apenas atrasava a chegada de um fim inevitável. Iria embora com a certeza de ter nascido condenado a acompanhar aquela maldição. Perseguia a sombra de um demônio, sem perceber que era a sombra que o seguia. Logo começaria tudo de novo, em outro lugar.

Redes sociais do autor: Jader Miani

Página oficial Izyncor: Jader Miani

Palavras-chaves
Conto, a sombra do condenado, terror, horror, suspense, autor nacional, Jader Miani

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