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O absurdo macabro de Junji Ito

Na dica de leitura de horror da coluna Horrorizando de hoje, vamos mergulhar no absurdo macabro do escritor e quadrinista Junji Ito. No texto anterior “O horror oriental de Ryunosuke Akutagawa”, conhecemos outro autor oriental. Vocês vão perceber que os dois escritores têm muito em comum nas abordagens temáticas. 

Junji Ito

Nascido em 1963, em Gifu, província japonesa,  é um artista de mangá de horror. Cresceu no campo, numa cidade ao lado de Nagano. Em sua casa, o banheiro ficava no fim de um túnel e era morada de insetos como grilos e aranhas. Isso influenciou Ito em seus futuros contos. Trabalhou como técnico em odontologia enquanto desenhava por hobby nos anos 80.

Os trabalhos mais conhecidos no Brasil são Tomie, uma série sobre uma garota imortal que leva seus admiradores à loucura; Uzumaki, uma trilogia acerca de uma cidade assombrada pela entidade sobrenatural da espiral; e Gyo, uma história de dois volumes onde os peixes são controlados por uma cepa de bactérias sencientes denominada “fedor de morte”.

Junji Ito se tornou ainda mais conhecido do público brasileiro depois de ser publicado pela editora nacional Darkside. Suas histórias também foram adaptadas para animações pela Netflix, numa série lançada em 19 de janeiro de 2023. É sobre o fascinante trabalho dele que falaremos.

Uzumaki (Espiral do Horror) é uma das obras mais populares do autor e aborda a presença misteriosa de uma ocorrência sobrenatural em forma de espirais. Ela influencia a cidade fictícia de Kurôzu-cho. É habitual, nas histórias de Junji Ito, presenças sobrenaturais surgindo para oprimir o ser humano.

O teor cósmico dos mangás de Ito está no fato de que a ameaça às personagens reside em perigos sobrenaturais capazes de desafiar a compreensão humana. Na maior parte de suas obras, os desfechos culminam na tentativa falha dos seres humanos de lidar com situações inexplicáveis. Assim, o autor mostra a inegável vulnerabilidade humana diante do desconhecido. Isso te leva a lembrar de outro escritor do horror cósmico que escrevia 73 anos antes de Junji Ito nascer?

Qualquer semelhança com H.P. Lovecraft não é mera coincidência. De fato, Junji Ito declarou-se influenciado pelo autor norte-americano. Porém, essa influência ganha contornos peculiares através da capacidade inventiva de Ito. Essas características podem – e vão – surpreender ainda mais do que os clássicos lovecraftianos.

Uzumaki é um dos títulos mais conhecidos, mas Junji Ito tem outras obras tão perturbadoras quanto. Destaco o livro Fragmentos de Horror, publicado no Brasil pela Darkside. Com 8 histórias macabras, ele é um prato cheio para todo fã de horror. Vocês não encontrarão nada como Junji Ito em qualquer outro mangá de horror. É difícil selecionar as melhores histórias do livro: todas são deliciosamente macabras. Escolhi minhas três favoritas para definir aquilo que chamo de absurdo macabro de Junji Ito.

Seguindo a ordem na qual aparecem no livro, “Monstro de madeira” é uma sucessão de esquisitices crescentes até o clímax típico de Junji Ito. A protagonista se sente estranha na presença da nova esposa do pai. De fato, a mulher é bizarra, mas de uma forma singular. Não é a típica ameaça horripilante. Ao contrário, a ausência de expressões faciais, o jeito robótico, as conversas desconexas, tudo isso nos leva ao desconforto por algo subentendido. Aos poucos, descobrimos junto da protagonista que a mulher não é o único elemento esquisito na história. Como de costume, Junji Ito mostra o horror na sua amplitude de forma abrupta, ao abrir de vez as cortinas do que está escondido nos elementos sobrenaturais da história. O final nos engole sem dar tempo de pensar sobre os fatos.

A segunda história que chamou minha atenção foi “Dissecação-Chan”. Não posso destacar muitas informações para não estragar a experiência de quem ainda não leu. Basicamente, acompanhamos a estranha condição de uma mulher: ela sofre com a obsessão por ser dissecada ainda em vida. O que me fascina nessa história é a capacidade inventiva de Junji Ito de transformar o absurdo em realidade e a constante tensão de ver algo revelado sem nunca, de fato, descobrirmos a verdade. Uma narrativa desconfortante e original.

A terceira história é “Pássaro Negro”. Diferente das outras duas, aqui Junji Ito aborda o lado sobrenatural de uma criatura metade mulher e metade pássaro. A figura me remete à harpia, criatura representativa do presságio de morte e mau agouro em diversas culturas, inclusiva entre os japoneses. O aspecto medonho está na forma de Junji Ito trabalhar os limites entre o mundo dos sonhos e a realidade. Inquietante, no mínimo. É uma das melhores histórias do livro.

Se você ainda não conhece a obra de Junji Ito ou teve contato apenas com a mais popular delas, Uzumaki, recomendo abrir sua mente para as outras tramas desse universo singularmente macabro. Espero que tenham gostado da dica de hoje. No próximo texto, vamos conversar sobre o horror nos games. Trarei dicas de jogos de terror que poucos conhecem, mas que são verdadeiras pérolas narrativas e podem encantar até mesmo quem não é familiarizado com esse universo.

Redes sociais da autora: Larissa Prado

Página oficial Izyncor: Larissa Prado

Palavras-chaves
Junji Ito, animação de horror, mangá de horror, Uzumaki, absurdo macabro, influência de Lovecraft

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