MENU

Blog Izyncor

Caçando Outra Maldição

“Caçando Outra Maldição” é um conto da série A Sombra do Condenado, de Jader Miani. Você pode ler o primeiro conto da série clicando aqui.

Este conto contém cenas com descrições de violência física. Não é recomendado para menores de 16 anos.

Caçando Outra Maldição

Nunca havia passado tanto tempo sem ouvir a voz demoníaca. O Estranho duvidava que a maldição o abandonara, raras vezes se permitia imaginar-se livre de seu destino e, quando o fazia, lembrava a sensação de ser um humano. Até arriscava sentir, mas nada tão ousado quanto afeição ou prazer; se contentava com uma dose de paz, mesmo com a duração de poucos dias. Rechaçava o recanto da mente desejoso da companhia maldita, embora sua existência estivesse tão entrelaçada à entidade que o silêncio constante soava como uma demência.

Com sua maldição ausente, não faltavam outras desgraças no mundo para cruzar seu caminho. Encontrou a porta da cabana aberta e entrou. O ar estagnado do interior cheirava a sangue misturado com mofo e amônia. Cuspiu no chão, tentando se desfazer do sabor rançoso que lhe tomava o paladar. Segundo boatos, uma fera tomara a região como morada. Porém, ao observar a cena, o homem duvidou se tratar de algum animal selvagem: os restos do que um dia fora uma família de camponeses estavam espalhados por toda parte.

Um único cômodo formava a moradia. Passou pelo fogão a lenha e pela mesa de madeira que, de alguma forma, se manteve imaculada. Seguiu até um canto nos fundos onde, até dias antes, o casal com os dois filhos dormia amontoado. Vísceras ressecadas se espalhavam sobre a cama maior, um emaranhado de palha encharcada de sangue e coberta com um couro gasto. Alguém teve o fim ali mesmo e, pelo visto, quem removeu o corpo não teve estômago para recolher o que escapou das entranhas. Espantou as moscas, abaixou-se e cheirou os restos pútridos como um cão. Cuspiu de novo.

Ainda agachado, moveu-se apoiado com as mãos no chão frio de pedra e sentiu o sangue ainda úmido nas pontas dos dedos. Parou ao lado da cama menor, na qual dormiam as crianças. Lembrava um ninho de passarinhos atacado por ratazanas. Alguns pedaços de carne e pele se agarravam à palha.

Seja o que for, atacou antes de despertarem. No entanto, uma fera não arrombaria a porta sem fazer um estardalhaço. O Estranho abandonou a carnificina e voltou sua atenção para a porta de entrada. Puxou-a como se fosse trancar por dentro e, em seguida, abriu uma janela estreita na parede oposta. A luz opaca do início da manhã reluziu no trinco de metal, a peça retangular comprida tinha se dobrado e arqueado para dentro. Logo acima, manchas avermelhadas tomavam o centro da porta.

Se alguém estivesse apoiado ali enquanto agonizava, o sangue ainda quente teria escorrido. Pelo contrário, respingos salpicavam os arredores. Algo acertara as tábuas várias vezes com a violência necessária para o trinco ceder. Talvez fosse mesmo uma fera, mas não uma deste mundo. De todas as maldições, conhecia poucas mais impiedosas.

O som de galope se aproximando interrompeu a inspeção. Correu e se espremeu através da janela caindo do lado de fora da cabana. O visitante desmontou olhando à sua volta. Não trajava uniforme e carregava um arco preso ao cavalo, além de um machado de cabo curto e uma espada. Um Caçador.

O Estranho ouviu a porta ranger e espiou pela janela. Abriu um sorriso ao vê-lo seguir exatamente os mesmos passos que fizera momentos antes, demorando um pouco mais na análise da porta arrombada. Parecendo satisfeito, o recém-chegado voltou para fora. Prendeu o arco nas costas e pegou o machado. Amarrou o cavalo em um tronco antes de se embrenhar pelas árvores rumo ao norte. O Estranho aguardou até ele sair de seu campo de visão, deu a volta até a entrada da cabana e observou o terreno em frente à porta. Não havia sinal de pegadas, e isso reduzia a lista de aberrações. Tanto os fundos da cabana, virados para o norte, quanto sua lateral, à leste, faziam divisa com uma floresta densa.

O homem farejou o ar. Mesmo ali fora ainda sentia o cheiro fétido. Observou a direção do vento agitando a plantação e soube para qual lado seguir. Apoiou a mão no punhal preso à cintura e concluiu que iria precisar de algo maior. Removeu a espada do cavalo e se embrenhou pelas árvores rumo ao leste.

De tempo em tempo, interrompia o passo e voltava a atenção para a copa das árvores. Depois, se colocava mais uma vez em movimento. Levou algumas horas mata adentro para, enfim, localizar um rastro de galhos quebrados. Seguiu na direção da trilha. Atravessou um riacho e continuou andando sem descanso até o sol passar do meio dia e iniciar sua trajetória poente. Precisava considerar o tempo necessário para voltar ao vilarejo ou qualquer outro lugar seguro. Quanto mais perto da noite, mais arriscado o trajeto.

Prestes a desistir e dar meia-volta, o Estranho encontrou os sinais da maldição. Não era a primeira vez que via algo assim. Os restos retorcidos pareciam couro de cobra, uma do tamanho de um homem, mas fediam à pele queimada. Ergueu uma porção com um graveto, e a membrana quase se desmanchou. Notou alguns trapos misturados aos restos e teve certeza de se tratar do que procurava.

Observou os rastros deixando o lugar. Não eram marcas claras devido ao chão forrado de folhas, concluiu serem pegadas de um homem adulto descalço em alguns pontos. Independentemente de quem fosse, ao menos teve sorte por ter conseguido arrombar aquela porta. Nunca teve filhos ou companheira, mas com certeza a dor seria grande quando acordasse junto aos corpos mutilados sabendo o que havia feito.

A pior parte dessa maldição.

Muitos pensam ser como um desmaio, um sono profundo, mas a consciência não dorme, na verdade. Cada segundo de violência, o sabor do sangue, a sensação das garras enterrando-se na carne, tudo era sentido vividamente.

Ele seguiu a trilha até um movimento entre as árvores obrigá-lo a paralisar. Teria o Caçador mudado de trajeto? Antes que pudesse duvidar, o homem ouviu um gemido baixo, como alguém chorando de boca fechada. Continuou com cuidado na direção do lamento até encontrar seu dono. O desconhecido abraçava as próprias pernas, deitado em posição fetal. O corpo nu estava coberto de manchas escuras e, em alguns pontos, algo gelatinoso se agarrava à pele como restos de uma placenta apodrecida.

O sol quase se pondo deixou a floresta na penumbra e revelava faltar pouco para o anoitecer. O Estranho desembainhou a espada e se acomodou encostado no tronco de uma árvore. Os olhos fixos no homem não ousavam piscar. Sequer percebeu a silhueta se esgueirando por entre as árvores e, quando se deu conta, já era tarde demais. Levantou em um salto, vendo o Caçador se aproximar do outro lado, ambos à mesma distância do moribundo caído. No entanto, o Caçador tinha como vantagem o impulso de estar em movimento. Prestes a descer o machado sobre a cabeça do infeliz, o Estranho interveio gritando:

— Se fizer isso, você será o próximo!

O Caçador parou, manteve o machado no alto enquanto o encarava.

— Este homem não é o que parece, a cabana foi arrombada por dentro. Ele assassinou a própria família — disse ao puxar o machado mais para trás e continuar o movimento de execução.

A interrupção deu tempo para o Estranho alcançar o outro e aparar a trajetória do machado com a espada. O Caçador reconheceu sua arma e sorriu.

— Além de ladrão, é comparsa deste infeliz?

— Estou te fazendo um favor — respondeu o Estranho.

Enquanto ambos se estudavam com as armas entrelaçadas, o homem deitado começou a convulsionar e gritar como um louco. O Caçador olhou assustado. A distração abriu uma brecha. O Estranho chutou-o atrás do joelho, e ele se desequilibrou. Antes que o oponente pudesse reagir, sentiu uma cotovelada no rosto. As vistas escureceram. O Estranho agarrou o cabo do machado e o desarmou.

— Você parece um homem habilidoso — disse. — Mas o que estamos enfrentando não é deste mundo. Se o tivesse matado antes de se transformar, teria tomado para si a maldição.

O homem não teve tempo para considerar aquilo como uma loucura. Os gritos do desconhecido caído se intensificaram, e um par de asas como de morcego brotaram de suas costas, rasgando a carne e respingando sangue na roupa e rosto do Caçador. O Estranho puxou-o pelo braço e ofereceu de volta o machado. Ele não recusou.

— Preste atenção, vou segurar a criatura — avisou o Estranho enquanto dava a volta por trás do ser em transformação. — Quando ele tentar voar, precisa acertar com toda a força, entendeu?

O Caçador consentiu com a cabeça e pareceu pronunciar uma oração silenciosa. Não havia muito a ser dito diante de tamanha bestialidade. A pele do homem começou a se partir como se uma infecção o tomasse de dentro para fora. A carne avermelhada pulsando sangue logo escureceu, como se apodrecesse. As mãos se transformaram em garras quando pontas ossudas tomaram o lugar dos dedos. A boca virou um focinho, um par de presas nasceu, e os olhos se tornaram vermelhos vibrantes. Em um instante, aquilo se levantava e girava as garras no ar, tentando acertar os dois homens que o cercavam.

— Agora! — gritou o Estranho, correndo e se agarrando à cintura da criatura que alçava voo.

O Caçador girou o machado no ar e deu um salto no final do movimento. Cravou com toda a força a lâmina afiada nas costas da coisa, que soltou um guincho estridente. O Estranho a soltou, e ela decolou alguns metros no ar só para cair em seguida, com espasmos.

A criatura se esfregava no chão e tentava remover a arma cravada nas costas. O Caçador se aproximou e pisou nas asas da besta. Retirou o machado ao som de ossos se partindo. Em um segundo ataque, ele acertou a cabeça do inimigo, abrindo o crânio com facilidade e colocando um fim ao tormento daquele condenado.

— Como você sabia? — perguntou, ainda extasiado pela adrenalina do embate.

Na ausência de uma resposta, olhou para trás, mas já não havia mais ninguém ali. Restava somente sua espada embainhada repousada no chão.

Redes sociais do autor: Jader Miani

Página oficial Izyncor: Jader Miani

Palavras-chaves
Conto, a sombra do condenado, terror, horror, suspense, Jader Miani

Uma resposta para “Caçando Outra Maldição”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *