MENU

Blog Izyncor

Um pedacinho de Quintal Fantástico

Jadna Alana nos dá um gostinho de seu conto “Sob o Mar de Jericoacoara”, parte de sua nona obra, publicada pela editora Izyncor: Quintal Fantástico.

Sob o mar de Jericoacoara

— Quero ouvir mais uma, vô — pediu o molequinho, afundando um pouco mais na rede semiaberta.

Seu Chicó, liberando uma gaitada expressiva, mirou o rosto ansioso do neto. Estavam os dois embebedados não só pelo sacolejar da rede no alpendre, de frente para o mar de Jericoacoara, mas também pelos causos fantásticos que o velho narrava com contentamento.

Havia acabado de findar a contação da Lenda do Papa-figo tão logo Bento emburrou a cara por mais uma.

— Oxe, menino, tu não precisa tirar esse grude, não? Tua mãe chega daqui a pouquinho pra te buscar.

— Ô, vô! Só mais uma, vá.
O velho riscou uma expressão misteriosa na cara, fingindo pensar na proposta do menino quando na verdade já tinha até a lenda que narraria em mente.

— Pois bem, esta eu nunca que te contei.

Os olhos de Bento cresceram em animação. Assim, ficou quietinho, em mudez, a boca quase como que cozida, para não atrapalhar em nada os causos que o seu querido avô diria dali em diante. Seu Chicó, então, tirou os olhos de Bento, mirou o céu azul praiano, ainda dando movimento à rede, e iniciou.

Dizem as velhas bocas, aquelas que um dia habitaram esta terra em que hoje pisamos, que a gruta de Jericoacoara é um portal pra uma vila subterrânea. Lá, as casas são pintadas de ouro, e é possível até mesmo avistar um castelo brilhoso pra além dos montes, onde mora uma princesa solitária… Seu canto, dizem, é penoso, porque sozinha passou séculos e séculos sem que ninguém pudesse com ela prosear.

Um dia, um jovem pescador tava chorando perto da gruta, observando pacientemente as lágrimas se afogarem na água cristalina do mar. Como já era quase noite, não havia ninguém na orla além dele, que aproveitava o momento pra colocar pra fora seus maldizes.

— O que fazia o coração dele se entristecer, vô?

Seu Chicó respirou fundo, tirando os olhos do céu azulado para assistir os olhos afoitos do neto, que esperava por uma resposta.

Aquele rapaz tava era fadigado da rotina, num sabe? Não via mais sentido naquela vida, pra ser sincero. Vez ou outra, pegava-se pensando que não seria uma ideia ruim subir no mais alto rochedo e despencar no mar pra nunca mais voltar. Na hora que derramava suas dores, ouviu um canto penoso, tão sofrido que fez ele pensar que sua própria dor não poderia ser mais triste que a daquela criatura. Ficou ali, quietinho, apenas ouvindo.

Já ouvira falar, através de bocas maldosas, que por aquelas bandas morava uma sereia malvada, uma que enfeitiçava homens pra com ela morar no fundo do mar. O rapaz achou estar sendo coberto por magia, e esperou o momento em que suas pernas o guiariam água adentro. Esperou e esperou, mas não sentiu o efeito da magia. Ah, foi diferente disso, Bento. Continuou angustiado por tamanha tristeza que povoava aquela composição de notas. Era uma contradição, claro, porque aquela que entoava murmúrios tinha uma doce voz.

Foi pra casa naquela noite pensando sobre aquilo, e voltou para a gruta no dia seguinte, após capturar uma leva pequena de peixes. A gruta tava quieta, e ele avaliou aquele azul cristalino por algum tempo, calculando se seria uma boa ideia mergulhar.

Caso tivesse sendo observado por alguém, mais tarde ele cairia na boca do povaréu como mais um que tinha sido levado pela famosa sereia, porque o rapaz começou a se despir, tirando as roupas pra depois saltar pela pequena furna. Vou te dizer: não havia nada o que ver além de algas marinhas, peixes de todas as cores e escuridão além. Mirou na direção da superfície, remoendo no juízo que aquele seria o momento certo pra retornar. Só que desistiu, visse?

O menino-homem avançou e quando tava convencido de que não tinha nada naquele lugar-nenhum, avistou um portão de ferro entre duas rochas grandiosas. Agoniado, nadou como um tubarão em busca de sua presa.

— Eita! Era lá, vô, a tal vila encantada?

Pois, sim. Os portões pra vila submersa de Jericoacoara. O rapaz tava boquiaberto porque era bonito por demais. As ruas asfaltadas de ouro, as casas, construídas em majestade; e, além, como diziam as lendas, um castelo tão monumental que até mesmo o mais rico dos homens se sentiria empobrecido. O jovem de quem falamos chacoalhou os portões, agora perdendo as forças e o pouco oxigênio que restava a ele, já que tava por muito tempo embaixo d’água.

Aí foi que ele mirou, vindo em sua direção, o que parecia ser uma cobra. Ah, sim. Você não ouviu errado. Uma cobra grande e diferente dessas que conhecemos, aquela tinha a cabeça de mulher. Os cabelos encaracolados bailavam através das águas, os olhos, grandes e penosos, eram amarelo-ouro, e sua boca, carnuda e grande, entreabriu-se pra saudar o visitante com uma nota aguda e leve.

Continua…

Gostou? Adquira já na pré-venda e ganhe brindes exclusivos.

Redes sociais da autora: Jadna Alana

Página oficial Izyncor: Jadna Alana

Palavras-chaves:
Conto, Mar de Jericoacoara, Quintal fantástico, folclore, regionalismo fantástico, regionalismo, fantasia, Jadna Alana, autor nacional

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *