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Blog Izyncor

O caso Dedé

Diário do caso Dedé

24 de Agosto de 2015

A mente humana é mesmo macanuda. Basta uma pergunta sem resposta pra atucanar o vivente; basta um piá desaparecer numa floresta pro povaredo acreditar em bobagem. Um fantasma pegou o guri? Francamente…

Bah! Pior do que isso é ter que escrever esse diário como forma de terapia… Que diacho! “Olá sou um detetive particular. Olá, sou Baltazar Goes, prazer…”

Francamente…

Então vamos lá:

Sou um detetive particular chamado Baltazar Goes, um guasca lá de Portela. Fui contratado por uma mãe que perdeu um filho num capão, ou algo do tipo. Não lembro direito, pois a mulher tava histérica ao telefone. Falou até que os policiais foram procurar o guri na tal floresta e nunca mais voltaram… Isso mais parece papo furado dos brigadianos pra não investigarem. Afinal, eles não vão ganhar nada a mais com isso.

Ser policial nessas cidades do interior deve ser uma beleza: os caras só tomam chimarrão e comem o dia todo. No máximo, deve aparecer B.O de marido batendo em esposa ou de briga de vizinho, coisa rápida de resolver.

Aliás, ela mora no interior, um distrito chamado Capão Novo, e eu tô morando em Porto Alegre faz uns anos já (cidade que só tem gauchão de apartamento). Dá mais ou menos umas duas horas de ônibus até lá, e tô escrevendo isso já dentro do ônibus. Por que não escrevi antes? Tchê, porque esqueci! Não gosto e nem quero fazer isso!

25 de Agosto de 2015

Passei o dia lá na Sônia, que perdeu o guri na floresta, e a coisa parece mesmo séria pelo que ela disse. Só quero deixar registrado aqui o quão miserável sou por não ter dinheiro nem pra pagar a porra de um hotel decente. Tô numa pousada de merda, uma espelunca caindo aos pedaços, que é o que meus pila de “detetive particular” permitem reservar.

Não tem porta do banheiro pro quarto nem box no chuveiro, preciso passar um rodo no chão depois de tomar banho pra jogar a água toda no ralo… Haha! Que chinelagem! Nem quando eu morava em Portela, junto dos índio, era assim… E quero também deixar registrado que esse caso vai me fazer sair dessa situação. Já consigo até ver matéria no Jornal do Almoço, entrevista na rádio Atlântida e os caralho a quatro! Essa investigação vai me render a fama merecida depois de todos esses anos tendo só cliente corno atrás da esposa em algum motel de várzea.

Tchê, a RBS já tava noticiando “o caso do menino Benjamin” sem parar e, pelo que vi, até a Civil tá pouco se lixando pro desaparecimento desse guri. Bah, ser Civil deve ser ainda mais fácil do que ser da Brigada…

Um piá desaparece assim, do nada, e os beleza não se mexem nem pra procurar?

Francamente… E eu aqui, fazendo caridade pra prenda que não tem um pila pra me pagar.

“O herói Baltazar Goes, senhoras e senhores”…

Mas voltemo ao rumo da prosa. Essa espelunca na qual tô hospedado fica relativamente perto da casa da Sônia. Então, depois de pagar a primeira diária e deixar minhas coisas no quarto (se é que posso chamar aquela pocilga de quarto), fui até o rancho dela. Pedi um Uber, mesmo sendo perto, porque não conheço nada na cidade e não quero me arriscar a ficar perdido neste fim de mundo.

Aquele “quarteirão” em que a Sônia mora é mesmo sinistro, o Uber precisou me deixar uns metros antes porque não existia uma estrada para chegar ao destino de fato. Um aramado separava aquele enorme arvoredo, e tive de me espremer todo pra passar por ali. Bah, se o nome deste lugar é Capão Novo, eu certamente tava entrando no Capão Velho.

Logo vi quatro pequenas casas, uma do lado da outra; todas encardidas, como em um enorme terreno. Adiante, realmente existia uma espécie de floresta que não parecia ter fim. Isso me pareceu, no mínimo, muito estranho.

Cheguei à casa da Sônia, a primeira. Proseamos. Primeiro, ela me agradeceu demais por ter assumido o caso na cara e na coragem, sem cobrar um pila ainda. Disse pra ela que me senti no dever de ajudar depois de ter lido sobre o caso no Zero Hora há duas semanas. Achava que os brigadiano iam resolver (ou ao menos tentar), mas isso não aconteceu.

Porém, algo aparentava estar errado com aquela mulher. Ela tremia ao falar do “monstro” que levara seu guri Benjamin (o pobre Ben) pra longe, mas ainda guardava esperanças de achá-lo, mesmo com a Brigada dizendo o contrário. Não podia fazer nada por ela a não ser afirmar que ia ficar tudo bem. E a prenda me revelou algo: tudo os piá da região tavam sumindo. Isso eu já não sabia, essa merda de imprensa não publica… Bando de vagabundo! Pedi o endereço das casas em que o piazedo desaparecido morava, e Sônia me apontou aquelas ao lado da dela. Tudo esgualepadas, tal qual era essa gente. E aí caiu minha ficha: ninguém tava pela pobraiada. Fui pra casa do lado pra tentar fazer o mínimo, coisa que mais ninguém tentou fazer por essa gente.

 

 

O menino Francisco

Esta é a casa duns tal Lacerda, que perderam o filho Chico. Francisco, presumo. O guri desapareceu há aproximadamente quinze dias (com base no que a Sônia me informou). Cheguei a despacito até a porta, como quem não quer nada, e toquei a campainha. Quem abriu foi um alemão calvo e bigodudo, sem camisa e dotado de uma pança cheia de marcas vermelhas. O guasca parecia um cachaço. Logo disse meu nome, quem eu era e a que vim, e o morrudo me falou:

— Nós já perdemos a esperança, seu detetive. Nosso querido Francisco, nosso Chiquinho, está nas mãos de Deus agora.

Prestei minhas condolências e, depois disso, pedi uma pista, alguma última palavra: onde o piá disse que ia, algo assim (qualquer coisa!). O cachaço me respondeu:

— Bem, minha mulher anda contando por aí que Francisco ia brincar com um novo amiguinho. Depois disso, nunca mais voltou. Logo o da Sônia também desapareceu, e a Brigada começou a procurar… Procurar naquelas, né? Eles disseram que os brigadianos também não voltaram. Nunca mais saí de casa depois disso; quem faz as compras agora é minha esposa, hehe…

O discurso foi seguido de um riso forçado. Eu o agradeci e parti pra outra casa, torcendo pro próximo vivente ter mais pistas do que esse baita vagabundo. Gauchão de apartamento de merda. O filho some, os brigadas tudo some, e ele ainda manda a mulher sair de casa… Francamente! Tem gente que nem apanhando se ajeita…

 

 

O menino Pepe

Fui pra a casa do outro menino desaparecido, o tal de Pepe, melhor amigo do Benjamin. Algo estranho aconteceu nesse meio tempo que fui de um rancho ao outro. Bah! Senti um frio me gelar a espinha. Cheguei a me chacoalhar… Pai, Filho, Espírito Santo. Cruz credo, Virgem Maria!

Mas o que importa é que cheguei ao lar de Pepe, uma casita mui humilde com uma caixa de correio com o nome Veiga estampado. Bati à porta. Uma negra feita a abriu e perguntou o que eu queria. A despacito, me apresentei. A senhora pediu pra eu entrar.

Fui me aprochegando e vi que era um lugar de poucos bens materiais, mas bem arrumado, com o suficiente pra sustentar uma pequena família. O nome da negra era Diana, e logo me mandou sentar. Assim o fiz. Ela pegou um mate e me alcançou. Aceitei de bom grado, e a mulher se acomodou à minha frente. Começou a falar sem parar do filho Peterson. A negra era boa de trova, ajudou e muito a me colocar a par da situação.

Contou que ele desaparecera logo após o guri de Sônia, que Pepe e Ben eram inseparáveis e seu piazito sentiu-se responsável pelo sumiço do amigo, pois não estava junto dele no dia. Então, partiu (na mocosa, é claro) floresta adentro no meio da noite. Diana começou a chorar, e eu garanti que ia achar os meninos. Perguntei a ela se Peterson e Benjamin tinham feito um novo amigo, e a prenda me revelou que sim, um dia antes do sumiço de Ben. Questionei se sabia o nome do piá ou onde morava, que eu ia atrás no mesmo momento, mas ela não pôde me responder.

Deixei a casa humilde da família Veiga com um aceno à senhora Diana. Tchê, o jeito que essa mulher falou me tocou. Agora me sinto no dever de achar as crianças.

Quem te viu, quem te vê, Baltazar! Mas que tal? Se apegando de fato aos piá

Francamente…

Essa gente precisa de ajuda. Pelo menos, tenho que levar o corpo dos guris de volta pra casa… Bah! Que diacho essa situação! Não tenho filho, então não faço nem ideia do que essa gente tá sentindo.

Só sei que me esgueirei todo no meio do alambrado pra sair dali e voltei a pé pra pousada. A noite não era lá muito convidativa e, no meio da estrada, me passou um zaino a galope. A criatura me deu um baita cagaço. Agora já tô na pousada, mas a vontade era de ir pro bolicho tomar uma canha e fumar um palheiro.

26 de Agosto de 2015

Bah! O dia de hoje foi macanudo, mas até que tá sendo muito tri anotar tudo aqui no diário. Como diz o ditado: “Se clareia, agarremo a estrada”. Já queria ir lá pra Sônia de manhã falar o que descobri… e que provavelmente ela já sabia, por ser vizinha dos viventes com quem conversei e mateei. Mas antes quis tomar um café na pousada. Vi que fazia parte do serviço. Esperava, no mínimo, um pão com melado e linguiça e um café com leite pra aquecer os ânimos. Mas ganhei uma maçã da turma da Mônica meio murcha e um copo de suco de laranja.

Mas que baita sacanagem! Fui reclamar e me disseram que não saíam com a mesma frequência de antes por causa do monstro à solta.

Francamente…

Agora era questão de honra resolver isso, pra esse muquifo servir alguma coisa que preste no café da manhã, pelo menos. Bando de vagabundo sem vergonha!

Pigarreei um palavrão e parti até a casa da minha cliente. Lá devia de ter um bom café da manhã. Tava um frio de renguear cusco na rua! O nordestão véio parecia cortar a cara. Então, fui meio que a galopito até a morada da Sônia. Ainda bem que não tinha ninguém pra ver nesse Capão, foi algo de se avexar. Mas quando entrei na rua – se é que podia chamar isso de rua – da pobraiada, notei as quatro casas ali com maiores detalhes: a de Sônia, a da família de Francisco, a dos pais de Pepe e uma outra, também mui simples, com musgos por toda a volta. Essa última carregava uma atmosfera sinistra… Tchê! Isso é que dá assistir muito filme de terror: ter medo de mofo. O mais provável era que os donos fossem relaxados mesmo.

Sem mais floreios, alcancei a residência da cliente. A mulher, apreensiva, abriu a porta e disse que já me esperava com o café da manhã pronto. Mas que tal? Entrei e fui direto à mesa. Quanta falta de bons modos! O que minha mãezinha iria pensar? Reconhecendo o erro, já adiantei à dona da casa: naquele dia, faria o trabalho de campo. Entraria no Capão pra achar o piazedo. Ela me alertou a tomar cuidado com o monstro que lá habitava. Sorri e saí atrás de mais pistas depois de encher a pança com café e pão.

 

A casa imunda

Antes de tudo, fui até a casa coberta de musgos na intenção de ver se tinha alguém morando ali. Ao mirar mais de perto, o muquifo parecia abandonado: tudo fechado, a grama muito mais alta do que na vizinhança, mas não custava nada buscar maiores informações.

Cheguei na frente da casa e aquele cheiro de mofo já se entranhou nas minhas narinas Bah! Um espirro saiu na mesma hora. Bati à porta rústica da casa. Ouvi apenas uma mulher gritando:

— Abra a porta, Sasha!

E a tal Sasha, uma criancinha, respondeu:

— Não, mãe, é o monstro querendo me pegar.

Quando a guria falou isso, senti aquele mesmo frio na espinha de ontem. Mas que tal? Todo afrescalhado, só me faltava essa! Olhei de súbito pra trás, até a floresta, no intuito de descobrir se havia mesmo algo me observando; talvez os olhos tivessem me enganado. No entanto, pareceu que um pequeno vulto se escondera atrás da árvore quando fitei a mata. A porta abriu, e uma mulher de crina loira e olhos azuis, muito branca mesmo, com um cheiro meio azedo, me encarou. Então, falei em tom descontraído:

— Buenas!

— O que tu quer?

O baque foi seco! Respondi com uma cordial apresentação, e ela me disse logo de cara que talvez sua filha Sasha pudesse me ajudar. Sentei-me no sofá imundo da também imunda casa, e a criança falou para mim, meio trêmula, sobre ter visto o guri responsável por levar todos na floresta. A pequena era boa de trova e me explicou que seguiu Benjamin quando ele desapareceu, pois gostava muito do piá.

Sasha contou que se escondera atrás de uma árvore ao ver Ben sair correndo até a mata atrás do guri chamado Dedé. Ela me garantiu também ter voltado correndo pra casa depois de ver um enorme flash percorrendo o local e o corpo do amigo Benjamin caindo no chão. Segundo a prendinha, era esse brilho intenso que matava as pessoas, e o mesmo brilho levava todo mundo na floresta. Depois do depoimento da guria, me retirei da casa imunda da família de Sasha torcendo pra não ter uma crise de rinite daquelas.

Pelo menos agora tinha um novo nome para a investigação: o caso Dedé. Quando saí do rancho, dei de cara com a floresta. De longe, vi um piá loirinho me olhando por trás de uma árvore. Gritei:

— Vem, tchê! Tu é o tal Dedé?

No mesmo instante, porém, o guri saiu correndo pro meio da mata. Eu, sem pestanejar, disparei atrás. Fui sugado pela tal floresta, mas conseguia ver o piazito lá longe, correndo. Gritava pra ele esperar, mas isso só o fazia correr mais e mais. Até que caí, tropeçando num galho. Baita azar! Quer dizer, achava que era um galho, mas era o corpo de um policial. Medi a pressão cardíaca do homem meio que no instinto, mas o moribundo estava mais branco do que papel, a boca mais preta do que carvão. Tchê, tinha até verme saindo da boca do taura. Ao menos, ele ainda tinha a arma na cintura. Peguei só por precaução.

Antes que escurecesse de novo, decidi voltar pra pousada. E dessa vez, admito: cagado de medo! Contudo, tinha adentrado demais no Capão, não sabia direito como sair. Quanto mais andava, mais sentia que aquele piá de bosta estava atrás de cada árvore, me mirando com atenção. Não olhei diretamente pra ele, porque tava me borrando de pavor! Por sorte, saí da mata antes de a noite cair. Cheguei aqui na pousada há pouco e jantei um péssimo feijão e arroz antes de sestear.

Hoje

NÃO OLHE DIRETAMENTE NOS OLHOS DELE!

— Olha só isso, cara. Essa última parte do diário de Baltazar parece ter sido escrita com terra.

— Sim. Bah, parece a mesma terra aqui da floresta.

— Por que tu acha que só tem isso escrito?

— Nossa, cara! Tu não raciocina, não? É óbvio que esse tal de Dedé pegou o Baltazar, e a causa da morte é olhar diretamente nos olhos da criança.

— Ah, desculpe, sabe tudo. Mas sou cético quanto a isso até me provarem o contrário.

— Tu ouviu a mulher: já faz tempo que o Baltazar assumiu o caso. Ela queria deixar quieto, mas ainda tem esperanças de achar o filho. Vamos dar nosso melhor para encontrar o corpo, pelo menos.

— Quanto acha que andamos aqui na floresta?

— Não sei direito… Muitas horas, com certeza. Já tá anoitecendo, e minhas pernas pedem descanso.

— Ei, olhe só aquilo.

— Meu Deus! Tem um monte de cadáver. São as vítimas do Dedé, certeza!

— Vamos nos aproximar. Putz, que cheiro ruim!

— Que loucura! Tô com medo!

— Não precisa ter medo, vamos resolver isso de uma vez. Pegamos o corpo do Ben e vamos até a Sônia.

— Mas estão todos decompostos!

— Que se foda, vem aqui comigo!

— Tá bom…

— Deve ser este corpo aqui, é menor que os outros e o cabelo é como o da mãe.

— Ei, o que é aquela luz lá longe?

— Não olhe! É Dedé! Não olhe! Fecha os olhos, porra!

— Ah, meu Deus, não consigo! Não dá! Ele tá me olhando! Tô sendo sugado!

— Meu Deus, não era pra tu ter olhado o guri! Eu falei! Tá me ouvindo? Aaaaaaah! Eu tô com medo agora! Tô com os olhos fechados… Só vou abrir depois de não sentir mais nada!

 

[…]

 

— Alô? Alguém? Ai, parece que ele se foi… Vou abrir os olhos agora.

Dedé olha para você.

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Página oficial Izyncor: Evezel

Palavras-chaves:
Conto, Caso Dedé, Evezel, diário, floresta, desparecimentos inexplicáveis, floresta densa, suspense

10 respostas para “O caso Dedé”

  1. Já conhecia os outros trabalhos do Evezel, e cada vez me surpreendo mais com as suas obras! Mas que conto foi este?! Muito emocionante, dá um medinho kkk, mesmo tendo poucas palavras o autor consegue criar um bom suspense.

  2. O conto melhorou bastante por causa da linguagem regional utilizada que aprofunda ainda mais na ambientação do leitor na história.

  3. Conto fantástico! Uma escrita envolvente e recheada de regionalismo que só enriqueceu mais a obra. Fica aqui minha super recomendação!!!

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