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Ave Chaugnar

As gotas do sorvete escorriam pela casquinha, deixando os dedos da menina grudentos. Os olhos estavam concentrados em algum ponto da vitrine de uma loja de chocolates. Quem passasse por ali não perceberia nada errado, pois era apenas uma garotinha cobiçando doces caros.

Quando o irmão se aproximou e tocou o ombro dela, a menina se virou e expeliu um viscoso líquido esbranquiçado pelos cantos da boca e do nariz. Era como se ela estivesse se afogando com o sorvete de baunilha. O rapaz ficou parado por breves segundos, tentando compreender. Quando não conseguiu, soltou um grito e deu passos para longe da pequena.

Heitor estava sentado no pronto-socorro enquanto a mãe conversava com o médico que atendeu sua irmã mais nova. Os pensamentos o atingiam com a lembrança da menina empolgada se arrumando para ir ao cinema com ele e dois amigos. Cecília estava na sua fase de deslumbramento com o primeiro garoto pelo qual se apaixonara, um dos amigos do garoto. Ele sentia ciúmes da caçula, mas disfarçava bem sob grossas camadas de deboche.

Enquanto esteve sentado ali, sem notícias, sem saber se algum dia Cecília voltaria para casa, Heitor sentiu vontade de dizer como sentia ciúmes. Queria falar sobre o medo de perder sua companheira de brincadeiras e ciladas. O amor que nutria pela irmã despontava, rompendo as camadas de vergonha e negação que constituem as relações entre irmãos adolescentes.

A mãe veio para a sala de espera com os olhos vermelhos; o rosto era uma contração de desolação. Heitor sentiu as lágrimas escorrerem e tratou de limpar antes que a mulher notasse. Ele não se permitia ultrapassar as camadas de indiferença cultivadas há anos.

Após oito dias sob observação médica, Cecília voltou para casa. O enigma em torno do seu apagão, consequência das fortes convulsões, continuou sendo estudado pela junta médica, embora sua família não se importasse tanto com isso. Eles só queriam a garota de volta, e ela estava lá, ocupando o quarto em frente ao do irmão, como sempre.

A espera pelo retorno da menina fez Heitor refletir sobre sua importância; ele não queria mais disfarçar o afeto que sentia. Então, arrumou o quarto com balões para esperá-la. As paredes pintadas de cores diferentes eram resultado da promessa feita à irmã: ele reformaria o quarto. Enrolara para cumprir.

Quando Cecília entrou pela porta, ainda nos braços do pai, arregalou os olhos de surpresa e mandou beijos para o irmão. Heitor sentiu-se envergonhado; não pelo beijo, mas por conta da imagem que lhe assaltava ao observá-la, os olhos purulentos chorando gosma branca.

Ele deixou o quarto assim que o pai acomodou a garota na cama e se trancou no seu. O coração disparado o fazia tremer. Ficou decidido que ninguém comentaria nada sobre os momentos ruins que vieram com o ataque de Cecília nos próximos dias. Todos seguiriam em frente. Heitor concordou, apesar de acreditar que isso era apenas uma forma de varrer a sujeira para debaixo do tapete.

Fingir que nada aconteceu não apagaria o passado. Cecília estava com algum problema grave, e ninguém o descobria. No entanto, sua família ignorava os problemas, como sempre fizeram. Heitor não disse nada, cansado por levar a fama de ser do contra nas reuniões familiares. Ele apenas assentiu ao emocionado discurso do pai antes de darem as mãos à mesa e orarem em gratidão pelo retorno da menina.

O rapaz nunca fechava os olhos em tais ocasiões. Geralmente, era por conta da sua ansiedade em comer logo. Naquele momento, porém, ele olhava o rosto da irmã enquanto o pai terminava a prece. Cecília estava sorrindo de forma debochada, e o garoto achou aquele sorriso enigmático e fora de lugar, pois nunca a vira com tal expressão. Foi então que Heitor começou a voltar sua atenção para o fato de que aquela talvez não fosse mais a mesma Cecília. Pelo menos não a que ele conhecia antes do estranho episódio no shopping.

À medida que os dias passaram, Heitor se pegou trancando a porta do quarto à noite. A irmã o encarava imóvel, em pé na porta, com aquele sorriso nos lábios e um cintilar metálico nos olhos. Ele começou a temê-la, tentava desviar os pensamentos do fato de que aquela era outra pessoa. Onde estava sua irmã de verdade? Aquela que decidira amar?

Dois meses se passaram até o dia da morte de Heitor. Os pais não entendiam, ninguém que o conheceu poderia compreender. Ele não deu nenhuma pista, não deixou nada capaz de dar à sua morte alguma justificativa.

Cada um tentava puxar para si a parte que lhe cabia por aquela morte. A mãe sentia-se negligente. Eu deveria ter percebido, murmurava para si enquanto o pai tentava se conformar: Fiz o que pude, mas poderia ter prestado mais atenção. Assim, renovavam suas lamúrias a cada manhã, a fim de diminuir a estranheza da circunstância.

Desse modo, deixaram de prestar atenção em Cecília, que não derramou nenhuma lágrima quando encontrou Heitor morto na cama.

— Ele morreu dormindo — ela disse aos pais, como se isso suavizasse a perda. “Morrer dormindo” soava como “morrer tranquilamente”. Mas quem poderia saber por onde Heitor esteve enquanto sua alma se desprendia do corpo?

O laudo constatou “suicídio por intoxicação de remédios”, e todos se apegaram a isso para seguir em frente. Cecília, porém, mantinha o sorriso fino nos lábios, como se soubesse de algo inacessível aos outros. Ela se movimentava pela casa sem causar ruídos, tal como seu irmão fizera. A garota reformou seu quarto.

Os pais deixaram-na com a chave, sem se importar com o que fazia trancada lá todos os dias. A garota distribuiu pequenos artefatos talhados em um material diferente de tudo que há na natureza entre as prateleiras, pelo chão e sobre a mesa de estudos. Eram imagens em todos os tamanhos de uma criatura sentada sobre uma pedra de forma contemplativa. Uma estranha tromba descia do centro de um rosto obscuro. À primeira vista, na penumbra do quarto, aquilo poderia ser confundido com réplicas malfeitas do deus hindu Ganesha, mas não era; as sombras projetavam ilusões visuais. Aquelas esculturas não eram réplicas de nenhum ser de qualquer panteão existente na história humana.

Cecília sussurrava para os objetos em um dialeto indecifrável aos ouvidos humanos. Ao fim de cada ritual, a menina caía em ataques convulsivos e expelia de novo a grotesca matéria gosmenta e malcheirosa pelos orifícios. Ela era composta daquele líquido; o que restava da alma da garota tinha se perdido no universo dos sonhos há muito tempo.

Redes sociais da autora: Larissa Prado

Página oficial Izyncor: Larissa Prado

Palavras-chaves
Conto, Larissa Prado, suspense, horror cósmico.

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