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Como criar suspense

Nenhuma história de terror ou thriller que se preze pode abrir mão do suspense. A tensão na leitura de um livro, então, é essencial para o leitor devorar as páginas e, mais ainda, ficar imerso na trama. Mas criar suspense de maneira efetiva requer experiência, planejamento e criatividade. Nesse sentido, nada melhor do que ter ótimas referências como base. Apresento aqui o segredo para o suspense de roer as unhas e atacar a ansiedade com toda propriedade, pois sigo o mestre do gênero: Alfred Hitchcock.

Pense na seguinte cena: duas jovens chegam tarde em casa depois de uma festa e bebedeira. Conversam sobre trivialidades, andam pelos cômodos e vão para o quarto em meio a diálogos fúteis. Até que um estranho sai debaixo da cama de uma delas com uma faca e ataca as garotas. Sem dúvida, isso é inesperado, chocante e até assustador. Mas quantas páginas maçantes não foram lidas até chegar ao que interessa? Não houve tensão ou surpresa e, por não ser um filme, não houve jump scare (ainda bem).

Vamos reescrever a mesma cena, portanto. Antes de as jovens chegarem em casa, o leitor fica sabendo que um maníaco invadiu a residência e se escondeu sob a cama quando ouviu o barulho das duas chegando. Antes disso, mostra-se do que o criminoso é capaz, com cenas bem violentas, cruéis e perturbadoras ou a simples menção desses fatos. Sabemos do que o algoz é capaz, e ele está oculto embaixo da cama. Aí, sim, toda a cena se desenrola, com os mesmos diálogos, os mesmos comportamentos, culminando no encontro com o assassino.

Mas agora é totalmente diferente, concorda? Com a informação que os personagens não têm, cada fala, cada passo das personagens vai fazer o leitor torcer para as duas saírem logo dali. Os diálogos triviais agora são agoniantes. Afinal, enquanto estão conversando, podem ser surpreendidas a qualquer momento. E lá vão elas, direto para o quarto onde está o monstro. O leitor não larga o livro até descobrir o desfecho das personagens. Já na versão anterior, estaria entediado até enfim chegar ali.

Este é meu exemplo, mas Hitchcock usa o da bomba: duas pessoas se sentam à mesa e conversam sobre algo não tão importante. Do nada, uma bomba explode, e ambas morrem. São cinco segundos de surpresa após uma cena desinteressante. Em contrapartida, se antes fosse mostrada a bomba sendo implantada embaixo da mesa para detonar em determinados minutos, o expectador ficaria tenso desde o momento da chegada dos personagens. Até falaria em vão para saírem logo dali. Toda a cena será tensa.

Logo na cena de abertura de Bastardos Inglórios, Tarantino faz exatamente isso. Além de um fazendeiro receber a visita de nazistas procurando por refugiados – algo já assustador por si só –, mostra-se os fugitivos escondidos sob o piso de madeira. O diálogo incrível entre o nazista e o fazendeiro ganha uma tensão extrema. No caso, todos sabem que eles estão lá: tanto nós, que assistimos, quanto o personagem. Mas e o oficial? Ele sabe? Será que vai descobrir? Essa informação extra faz toda a diferença e é essencial para essa cena se tornar tão icônica e aterrorizante.

Infelizmente, não posso citar exemplos de Caligem, meu livro de terror psicológico, para resguardá-lo de spoilers. Mas garanto: há cenas de suspense que seguem esse método hitchcockiano, deixando a leitura visceral em vários momentos. O medo pode ser pessoal e não funcionar com todos, mas a tensão é mais democrática. Os dois, então, aliados a eventos perturbadores e doentios, farão com sua experiência se transformar em algo traumatizante.

E eu sei: isso é exatamente o que você procura.

Redes sociais do autor: Dark Gero

Página oficial Izyncor do autor: Dark Gero

Palavras-chaves
Criar suspense, Hitchcock, tensão, jump scare, Tarantino, Caligem

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