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Da palavra, ao livro

A obra “é a expressão das ideias e sentimentos daquela pessoa em especial — ideias e sentimentos pessoais a ela própria…”

Embora eu acredite na teoria do autor morto, que depois que finaliza seu manuscrito e entrega ao mundo deixa de ser importante — porque o que tinha de ser dito está escrito, e o leitor não precisa consultá-lo para compreender o que está posto —, acredito também na importância deste manipulador de palavras para a construção da obra. Mesmo que Machado de Assis dissesse que Capitu traiu Bentinho de que importava, se na obra não encontramos essa certeza? É ali, na escritura, que mora a verdade, e o autor serviu com ferramenta para isso. Depois de findado, seu trabalho acaba, mas isso não quer dizer que ali não foi entregue também as intenções daquele que a produziu.

Esta é a minha visão, pelo menos.

É inegável, e estou falando de mim, é sempre bom reforçar, que nas entrelinhas, em muitos não-ditos, na personalidade de algum personagem ou de todos, há parte de nós. Há parte de mim.

Eu poderia muito bem falar aqui de todas as minhas obras, de um jeito genérico sobre como acontece a transição da palavra ao livro, mas gostaria de fazer um recorte, falar do meu mais novo: “Quintal fantástico”. A obra se trata de um regionalismo fantástico ambientado no Brasil, ocupando suas várias regiões. E mesmo que se trate de uma narrativa que passeia por muitas vivências, de Norte a Sul, “Quintal fantástico” sou eu do início ao fim.

Ainda quando era ideia, já me cativava. Primeiro eu sabia que precisava escrever dez contos, dois para cada região do Brasil, e inserir em todos criaturas do folclore brasileiro. Queríamos trazer a representatividade local, mostrar para o público que o nosso país tem uma bagagem cultural vasta para pensarmos em obras mais locais, sem tantas referências estrangeiras e importadas que tanto povoam o mercado nacional atualmente.

Por isso, precisei procurar dentro de mim a minha essência, o lugar de onde eu vim, a minha infância, as histórias que tanto ouvi e que preencheram a cultura popular em que eu estava inserida. Mesmo assim, eu também precisava manipular minhas palavras para me colocar no lugar de uma criança mineira, ou ainda compreender como pontuar a fala de uma senhora gaúcha, também sentir o gingado de uma jovem paraense ou pantanense.

Foi um desafio inesperado, considerando que em muitos desses lugares nem mesmo pus os pés. Foi quando me conectei a uma ideia: mesmo que a cultura às vezes divirja, mesmo que alguns costumes sejam diferentes e o linguajar varie, mesmo assim fomos criados sobre o mesmo chão brasileiro. Todos nós ouvimos histórias fantasmagóricas de nossos parentes quando crianças, ou nos reunimos em família em datas comemorativas independentemente de que comida típica estivesse disposta à mesa, já conversamos com pessoas que não compreenderam o significado daquela palavra e tivemos que explicar a regionalidade dela. O significado tão comum em nosso meio e ao mesmo tempo tão diferente para a cultura do outro; mesmo que seja nosso vizinho de estado.

Esse foi o poder, a magia que me guiou por 128 páginas de “Quintal fantástico”, pensar a unidade ao mesmo tempo que pensava a individualidade. Pesquisei lendas comuns do folclore brasileiro e distribuí pelas regiões, criando unidade de acordo com cada localidade, respeitando seus costumes. As páginas, então, antes vazias foram completadas por cores, diversidade, sabores, risos e celebrações: desde um indígena pequenino, carente de uma companhia para brincar na floresta até uma jovem pantanense que precisava registrar em um caderno as histórias de seu avô antes que ele perdesse a memória.

Da primeira palavra do livro até a última, escrevi-me. Derramei as memórias de infância, a lembrança de quando me deitava na rede com meu avô para ouvir suas histórias, o cheiro quase palpável da pamonha saindo do forno. E também me emprestei, emprestei minhas mãos e escrita para descrever o som dos sinos de domingo em Ouro Preto, o recordar do gostinho de chimarrão bem cedo da manhã. Porque aqui entra outra parte da teoria que diz: “o poeta é apenas uma voz”.

Como costumo dizer, embora haja muito de mim em minhas obras, sou apenas uma ferramenta munida de técnicas e inspiração para dizer o que tem que ser dito. Os personagens me movem, sussurram em meu ouvido, imploram para serem escritos, e eu obedeço senão ficarei louca. Então, prazer, sou a voz que trouxe ao mundo “Quintal fantástico”, transformei palavra em livro.

Como magia.

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Redes sociais da autora: Jadna Alana

Página oficial Izyncor: Jadna Alana

Palavras-chaves:
Livro, autor, autor morto, regionalismo fantástico, folclore brasileiro, Quintal Fantástico

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