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Pequenos Finais

. Não, senhores, não errei esquecendo um . no início do meu parágrafo. Pelo contrário, o fiz para condizer com o resto da minha existência, antecipando ansiosamente o fim, mesmo antes de qualquer começo

Não, também não esqueci de finalizar o parágrafo, apenas recusei colocá-lo em seu devido lugar. Assim como em todos os momentos, ele parece chegar inoportuno e, por pura rebeldia, me afasta daquilo dos meus anseios e desejos de dias e semanas. Transforma seja lá o que for em memórias incertas que, com pouco, tornar-se-ão confusas o bastante a ponto ninguém saber dizer o que guardam

E sim, já nego mais uma vez o poder dado universalmente ao . para encerrar, destruir e pisar em nossos prazeres, rir de nossa saudade e levar consigo nossas alegrias…

Calma, senhores: não diferente de qualquer outra existência ou acontecimento, a rebeldia tem seu tempo. E por mais que insista em se demorar, a falta de uma conclusão a torna enfadonha. Devemos, então, posicionar o . em seu lugar, como devido.

Uma vez que a eternidade nos negou seu dom naturalmente, é lógico ansiarmos por novos começos e desejarmos com afinco novas aventuras. O novo nos faz sentir vivos, ou pelo menos é o que dizem os jovens, abençoados pela ingenuidade característica do pouco tempo.

Mas até quando podemos culpar a juventude? Não é característico da humanidade procurar novos caminhos e conquistas? Não se torna cada vez mais imperativo a necessidade de se adaptar nos tempos modernos? E a que exatamente nos adaptaríamos se não à beleza do novo, frente aos escombros do que um dia já sustentou esse título em seu olhar?

A rebeldia da juventude agora pode parecer o que de fato era, né? Infantil. Mas enfim conseguimos o que há muito desejamos. Só não concluímos o pensamento e não demos lugar aos pontos; logo, pouco percebemos. Sim, senhores, adiamos os pequenos finais de cada dia, semana ou mês. Por imposição, continuamos a renegar ao . seu lugar de direito. Assim, somos cercados por ciclos incompletos e, aos poucos, precisamos lidar com pontas soltas demais, nutrimos desesperadamente o sonho de recomeço.

Ansiosos por novos inícios, passamos a ignorar aquilo que é intrínseco à cada um deles: seus finais ou, por assim dizer, seus pontos. Não me excluo desse grupo. Afinal, hoje me vejo como o romântico que nunca esperei ser por vezes, aguardando o momento no qual estarei mais uma vez com a pessoa que amo, abraçado, sentindo seu cheiro e ouvindo de perto sua respiração, contando as batidas do seu coração e fazendo o possível para o temido fim não chegar.

Claro, não é a única expectativa alimentada por mim, assim como não seria o único exemplo a ser citado. Porém, é a mais valiosa ao pensar em momentos que jamais quero esquecer. Em resumo, é disto que se se tratam os pontos: concluir anseios e perpetuá-los em lembranças. Percebemos, então, que pertence ao novo o sentimento de vida. Mas ele apenas lhe caracteriza a existência, pois são as memórias as responsáveis por carregar nossas vivências e nos preparar para reconhecer que, após cada pequeno fim, outros começos tecerão o futuro em recordações dignas de uma vida repleta de altos e baixos. Nela, teremos a oportunidade de aproveitar cada passo até o poço cuja função é saciar nossa sede em vez de desfrutar de uma simples pílula d`água.

Por saber que novos começos sempre trarão consigo os preciosos finais, desejo aqui corrigir um erro da juventude desse texto. Pois, senhores, agora percebo meu equívoco ao antecipar o . ou negar seu uso em meu parágrafo de abertura. Já dizia Shakespeare: “Com o tempo, você aprende”. Talvez agora posso dizer que aprendi – ou pelo menos consigo reconhecer – a importância de cada início e seus pequenos finais.

Redes sociais da autora: Leandro Chagas

Página oficial Izyncor: Leandro Chagas

Palavras-chaves
Conto, Leandro Chagas, Mago Bipolar, memórias, começos, finais, juventude

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