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A bola de Fogo

A bola de fogo

Carta a João

 

Cá cheguei e te contar me atrevo.

João, meu amigo amado,

Se pra ti essa carta escrevo

É porque da morte tenho escapado.

 

Minha vó sempre contava

De tal bola de fogo mui estranha

Que, de cada tempo, se mostrava.

E bah! Hoje quase me abocanha.

 

Tava eu voltando da lida

Em cima do pingo, troteando,

Quando, na mata, vejo a ferida

Que esse fogo foi deixando.

 

Cuê-pucha! Esporei o zaino amigo

E pensei na minha prenda.

O rastro se alastrava pra nosso abrigo

E faria da china, oferenda.

 

O tordilho véio foi a toda, xucro.

Amava a madama o tanto quanto eu.

Queimar-nos junto dela seria lucro,

Pensava, até o pinote que o pingo deu.

 

Lá estava ela, a bola de fogo.

Era enorme, como vovó contava.

Ia lerda, o que deu um desafogo.

Minha prenda, de longe, me esperava.

 

O problema era o tamanho da labareda:

Como iria por ela voltear?

Nessa briga, eu era um bicho-da-seda,

E aquele fogo, um grande luar.

 

Tu sabe que moro no meio do capão.

Ao redor, já tava tudo queimado!

Olhei pras estrelas, fiz minha oração,

Acariciei o pingo bem domado.

 

E num esporar, deixei o zaino redomão.

Como flecha, atravessamos a picada.

Mas te juro! O fogo virou uma grande mão,

Vinha contra nós dar uma pechada.

 

Aquela enorme mão de fogo flutuava.

Eu já aceitara a morte, cabisbaixo.

E no tapa queimado que ela dava

O pingo, no reflexo, passou por baixo.

 

A galopito, partiu em direção da china.

E ela lá bradava, com voz que externa,

Dizendo: “A mão vem atrás, na surdina”.

O zaino a alcançou, e eu boleei a perna.

 

Não sei como te contar isso,

Mas o pingo partiu sozinho, na sina,

Porque comigo firmou compromisso

De lealdade que só o bicho ensina.

 

E antes de eu gritar, ele já tava lá,

Na frente da mão de fogo estiva,

A mesma que contava minha vó Zilá,

Se jogando contra ela, sem alternativa.

 

E nesse momento, te juro! Ele tinha asa.

No meio daquele fogo, era o Pegasus

Lutando contra o diabo na frente da minha casa,

Aqui no capão antes do pélago.

 

Ouviu-se um estouro como nunca igual.

Aquele fogo maldito desapareceu.

E junto dele, se foi o meu pingo tão leal:

Na minha frente, faleceu.

 

Estava virado num cinzaréu,

E chorando muito, me aproximei.

Um pedaço da crina não foi pro céu.

Juntei ela, sempre a levarei.

 

Meu zaino sempre vai me proteger,

Como que hoje me protegeu.

Escrevo-te isso no amanhecer,

Confuso se quem o fogo queria era eu.

 

Pois vovó contava que o fogo sumia

Depois de uma vida ceifar,

Mas logo volta e se alumia

Noutra estância, pra mais uma vida levar.

 

Que esse chasque abra teu olho,

Porque já é guasca afamiliado.

Não vai agir que nem roncolho,

Fugir e deixar a prenda de lado.

 

A bola de fogo pode aparecer por aí,

Deixo isso aqui redigido.

Não é porque tu mora em Gravataí

Que o fogo deve ser esquecido.

 

Ademais, a nega véia te manda um abraço.

Cuida bem da tua china, João!

Não quis assustar com o canhonaço,

Mas sim te alertar sobre o fogo, essa mão.

 

Mando também um tabaco para que fume.

Do teu velho amigo do coração,

Que se assina por costume

Luís Moreno, das terras de Capão.

Redes sociais do autor: Evezel

Página oficial Izyncor: Evezel

Palavras-chaves:
A bola de fogo, Evezel, João, Luís Moreno, Gravataí, Capão da Canoa.

Uma resposta para “A bola de Fogo”

  1. Muito bom ver uma pegada mais regionalista do Evezel aqui na Izyncor. Dá pra ver que ele tem bastante liberdade e está bem à vontade aqui. Lembro-me ainda de quando ele escrevia no seu blog, o começo de tudo.
    Ansioso pras próximas do Evezel por aqui!

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