MENU

Blog Izyncor

Qual o final ideal para as histórias de terror? #1

Contém spoilers de filmes!*

O polêmico final de Caligem deixou muitos leitores boquiabertos, e com certeza dividirá opiniões. Eu digo que é o término perfeito para aquela história contada, totalmente condizente com tudo que foi mostrado até então, mas não vou estragar a experiência de quem ainda não leu. Aproveitando a deixa, porém, vamos falar sobre os tipos de finais das histórias de terror.

É inegável que, após acompanhar uma longa narrativa, seja em um filme, série ou nas centenas de páginas de um livro, vamos torcer para os personagens terem um final feliz, caso eles sejam bem construídos. Um desfecho digno é nossa recompensa por torcer tanto por aquelas figuras; vemos a superação dos desafios como uma forma de motivação para encararmos nossos próprios problemas. É assim no drama, na comédia romântica, nos romances, nas aventuras e na maioria dos gêneros. Com exceção de quando a história é baseada em fatos conhecidos do público (e sabemos que o protagonista morrerá no final, por exemplo), torcemos para dar tudo certo no final. Então por que no gênero terror, cuja sobrevivência é o ponto-chave, geralmente temos finais trágicos? É possível existir um final feliz no terror?

Para começar, os finais tristes ou trágicos não são exclusividade do terror: na história do teatro grego, por exemplo, temos as famosas tragédias. Estas, mesmo mostrando enredos de amor como o de Romeu e Julieta, eram fadadas à tragédia. Muitos filmes dramáticos atuais – alguns baseados em livros – partem desta premissa: casais nos quais um dos dois tem uma doença terminal ou está decidido à eutanásia. Não há final feliz, e essa é a fórmula para arrancar lágrimas. Por isso mesmo, torna-se um sucesso. O terror, porém, não costuma causar emoções que levem ao choro. O foco é outro. Dessa forma, faz sentido a infâmia de ter finais “ruins”, em que ninguém ou quase ninguém sobrevive?

É preciso ter em mente a proposta de cada gênero. O terror tem como mote principal nos colocar em situação de medo e tensão, apresentando um universo desconhecido onde o Mal impera; ele nos lembra quão perigosos e cruéis podem ser os seres humanos. Ou mesmo nos confronta com o sobrenatural, pondo em xeque as crenças e, ainda assim, gerando a catarse de estarmos a salvo. Se somos apresentados a um cenário de desesperança, no qual dificilmente alguém sairia ileso, faz todo sentido que apenas nós, leitores ou espectadores, sobrevivamos sem nenhum arranhão. Assim, a reflexão sobre a periculosidade daquela ameaça fica ainda maior e abre margem para pensarmos em maneiras de escapar delas.

Mas engana-se quem acha que o terror possui apenas um tipo de final. Se fosse assim, o gênero seria previsível por si só (infelizmente, a maioria esmagadora das obras é, sim) e não geraria tensão sobre o destino dos personagens. Apresento, então, alguns tipos de conclusões para essas obras sombrias, começando por:

Final aberto

Sabe quando chegamos ao fim de uma história e não temos todas as respostas dos mistérios ou da pergunta dramática apresentada no início? Finais em aberto geram discussões e interpretações ou simplesmente mexem com nossa imaginação. Em Invasão Zumbi, por exemplo, as sobreviventes são resgatadas pelo exército, e fim. Mas quem garante que ficaram sãs e salvas? Quem assistiu Extermínio sabe que mulheres – e mesmo crianças – em um mundo pós-apocalíptico e sem lei estão à mercê até dos que deveriam protegê-las. Mas preferimos acreditar em sua salvação, para o bem de nossa sanidade.

Coluna Final Ideal: Filme Invasão Zumbi 2016
Filme Invasão Zumbi (2016) do diretor sul-coreano Yeon Sang-ho

 

Outro final aberto e sem respostas é o de Martyrs, um filme indigesto sobre tortura sádica. O longa nos leva a uma conclusão frustrante de não sabermos o que diabos a velha ouviu que a fez atirar na própria cabeça. Mas essa é a “beleza” do filme. Quem somos nós para ter de mãos beijadas a resposta sobre o pós-vida?

Filme Martyrs (2008)
Filme Martyrs (2008) do diretor francês Pascal Laugier

Os dois exemplos acima não são necessariamente bons ou ruins. Invasão Zumbi está mais inclinado ao feliz, mas Martyrs, embora tenha matado de forma cruel a protagonista (lenta e dolorosamente), acaba com um mistério maior. O filme poderia justificar tudo que foi feito dentro da proposta da história e do culto, mas não o faz.

Outro filme com final em aberto é The Invitation, excelente terror psicológico, com aquelas lanternas vermelhas por toda parte. É o tipo de final capaz de nos deixar com a boca aberta, sem acreditar que os créditos já estão rolando. É preciso muita habilidade do escritor ou diretor para apostar em um desfecho tão arriscado. Quando bem feito, no entanto, fica sensacional e permanece na mente por muito tempo.

Filme Invitation (2015)
Filme The Invitaion (2015) da diretora norte-americana Karyn Kusama

No próximo artigo, continuarei discorrendo sobre outros tipos de finais possíveis do gênero terror. Enquanto isso, quais você acha que existem?

Redes sociais do autor: Dark Gero

Página oficial Izyncor do autor: Dark Gero

Palavras-chaves
Caligem, Dark Gero, final ideal, terror, proposta do gênero

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *