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A Crítica Social Por Trás de “Quintal Fantástico”

Uma característica comum do folclore “é que ele se transmite de pessoa a pessoa, de grupo a grupo e de uma geração a outra, segundo os padrões típicos da reprodução popular do saber, ou seja, oralmente, por imitação direta e sem a organização de situações formais e eruditas de ensino-e-aprendizagem.

O ato de contar histórias é uma performance, portanto, na qual o contador reproduz a narrativa que ouviu para a posteridade, sem se prender aos detalhes. Por isso as contações folclóricas têm muitas versões e adaptações, já que são transmitidas de um para outro através de um telefone sem fio, adaptado de acordo com cada realidade. O Homem do Saco, por exemplo, também se chama Papa-figo; e a Caipora por vezes se confunde com o Curupira – na minha região, conheço como Maria Florzinha.

Foi pensando nisso, nessas modificações culturais por causa da fala, que decidi recriar – na verdade, “modificar” – algumas lendas. O objetivo era não só trazer uma roupagem atual, mas principalmente utilizar a escrita para criticar o social. É claro, minha performance não é oral, como comumentemente é a perpetuação dos contos. Mas a dos pais que lerão para os filhos antes de dormir certamente será.

Inquieta como sou, me questionei sobre o motivo de a Mula-sem-cabeça ser uma mulher, como sempre condenada às mazelas do mundo apenas por se apaixonar. Lógico, ela não se apaixona por qualquer pessoa, mas por um padre. Fica, então, minha pergunta: quem estava compromissado com Deus? A mulher ou o padre? Bem, a resposta é óbvia. O papel da minha literatura, além de entreter, é trazer reflexões. Essas histórias contadas antes de nós tinham também um papel moralista: “não peque e, se pecar, mesmo que o homem esteja errado, a mulher será condenada”. Ora, pois, não deveria ser assim. O padre era devoto a Deus, ele é que deveria ser castigado. Com o intuito de questionar – não o folclore, mas o pensamento por traz dessas “lições” –, ousei, sim, transformar o padre em Mula-sem-cabeça. E isso não é uma descaracterização da nossa cultura, mas um pensamento capaz de atualizar esses causos para a nossa geração.

O mesmo acontece no conto “A liberdade tem cor de grama molhada”, no qual a personagem principal é a Cuca. Sempre tive medo dessa mulher, sempre achei que comia criancinhas em seu caldeirão. Mas e se, na verdade, a Cuca fosse um símbolo de resistência feminina? Se através dela a gente pudesse ver nossa ancestralidade bruxa? Daquelas que foram queimadas na fogueira apenas por serem mulheres? O chamado da Cuca, nesse conto, é sobre se libertar das amarras patriarcais e ser livre. “Todas as Cucas em uma só se banhavam no rio, mergulhando com os peixes. A criatura cavalgava pelos descampados com os cabelos soltos, marchava à frente da boiada, fazia brotar as mais belas pitangueiras e butiazeiros e plantava especiarias e ervas em sua horta, juntando-as depois no caldeirão para extrair as poções mais poderosas do mundo”.

Por fim, a título de exemplo, o conto do Lobisomem, “O uivo da montanha”. Na verdade, o lobisomem é uma mulher. Talvez esse seja meu conto favorito, porque é um grito feminino sobre a irmã mais nova em uma família de homens, todos grandões e machões. Ela é a única a desempenhar o papel de cuidadora da casa ao lado da mãe. A menina se sente sufocada naquelas paredes; quer partir, mas não tem para onde ir. É essa raiva e angústia que despertam nela o poder feroz. E na noite de lua cheia, a garota solta as garras e parte para as montanhas. Sempre me questionei por que o Lobisomem era homem. Afinal, a mulher, sim, tem ciclos iguais à lua. A mulher, sim, tem dores o suficiente para querer desbravar o mundo com seus uivos de revolta.

Portanto, minha literatura tem essa intenção de questionar, fazer diferente, trazer algo novo, não repetir o mesmo. Compreendo aqueles que irão, de alguma forma, rejeitar a releitura, mas o livro é para aquela Jadna da infância – que ainda há de conhecer o mundo ou a criança interior daquelas que muito sofreram –, para ela ficar certa disto: não precisa ter medo da Cuca. Pelo contrário pode se inspirar nela e ser livre, ou ainda na mulher-lobo, em sua coragem de sair da repressão do lar. Ou ainda que não será transformada em Mula-sem-cabeça se decidir amar.

Redes sociais da autora: Jadna Alana

Página oficial Izyncor: Jadna Alana

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Palavras-chaves:
Crítica social, Folclore, Quintal Fantástico, Jadna Alana, Mula-sem-cabeça, Cuca, Lobisomem, Gerações

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