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O Conector de Almas I

O Conector de Almas I

Já passava da meia-noite, e mais uma vez não conseguia pregar os olhos para dormir. Essas vozes, esses vultos, as mesmas lamúrias de sempre. Toda noite, o mesmo velho filme!

De acordo com muitas pessoas, carrego um dom. Está mais para maldição essa cruz.

Você deve estar pensando como é ver, ouvir e falar com fantasmas, basicamente o que faço. O quão aterrorizante é isso… Com o tempo, porém, a gente acostuma.

Desde quando me conheço por gente, eu os vejo. Lembro da primeira aparição: minha falecida vozinha, mãe da minha mãe, na cozinha; ela tentou pegar um biscoito para mim. É engraçado, pois fantasmas não podem tocar nas coisas.

Sabe, nunca a conheci em vida. E quando mamãe me viu falando sozinho, achou que eu estava ficando louco. Devia ter uns 3 ou 4 anos na época.

Assim que descrevi a senhora para minha mãe, ela teve um treco. Eu falava as palavras ordenadas pela falecida, só confirmava a veracidade do relato.

Nesse mesmo dia, mamãe foi até um centro espírita e chamou uns médiuns, não lembro quantos. Mas lembro-me de eles tirarem minha vó de casa. A partir daí, minha história com essa coisa toda de espiritualidade começou de fato.

Ia constantemente nesse e em outros centros espíritas para “aflorar” essa mediunidade, como eles diziam. A verdade é que nunca mudou nada, sempre fui esse cara sinistro capaz de ver, ouvir e falar com os fantasmas. Às vezes, até materializo coisas. Certa vez, materializei uma xícara faltando para um piquenique… Pois é, bizarro! Mas aconteceu.

Enfim, estou me alongando demais nessa narrativa. Vou voltar.

Já passava da meia-noite, disso eu lembro. Como não conseguia dormir devido a todos aqueles cascões astrais me enchendo o saco, decidi dar uma volta. Não me recordo direito para onde ia. Acho que estava indo a um bar…

Minto…

Eu tinha uma namorada, era isso! Estava a caminho da casa de Zélia.

Nossa, agora lembro, ela era mesmo linda. Tinha um corpão, cabelo preto ondulado até a altura do ombro, um olhar bem penetrante. Caramba, chega a bater uma nostalgia aqui, até o cheiro adocicado do perfume que ela sempre usava posso sentir.

Era isso, estava indo em direção à casa de Zélia quando, de repente, um sujeito misterioso surgiu do nada na minha frente. Ele era narigudo, foi a primeira coisa que notei. Também trazia um olhar malicioso e um sorriso convencido no rosto. Para ter aparecido desse jeito, achei que era um fantasma.

— Olá, Érico, sei bem quem é e tenho uma missão para você — ele me disse.

— Esse papo de missão de novo… — respondi após um pigarro de desdém. — Quer que eu ache tua mulher e passe um recado, é?

— Sei que parece suspeito, mas não sou um fantasma… Sou assim como você, um Conector de Almas.

— Conector de Almas? Que papo é esse, ô, Zé Mané?

— Você não sabe? — O sujeitinho me devolveu, tirando uma com a minha cara. — Somos escolhidos para lidar com almas deste mundo… e dos outros.

— Mas isso aí é chamado de médium, espertinho. E prova pra mim que você não é um fantasma, apareceu aí do nada.

— Isso é o suficiente? — ele perguntou ao segurar o poste ao seu lado sem atravessá-lo.

— É, acho que sim… Mas um monte de gente é como nós, somos médiuns.

— Não, meu caro. Você sabe que não. Os médiuns lidam com os problemas deste mundo. Nós, os Conectores de Almas, lidamos com problemas dos outros mundos também.

— Ah, tá bem, vou fingir que acredito — rebati com sarcasmo. Eu era bem babaca, disso lembro bem. — E qual é que é a dessa missão aí? Quer que eu vá pro inferno sentar no colo do capeta?

— Está se achando muito engraçadinho, não é? — ele questionou sorrindo, mas logo ficou muito sério. Tão sério que minhas pernas bambearam só com o olhar dado por ele antes de prosseguir. — Você e eu somos os únicos Conectores de Almas neste mundo, e sabe como tenho certeza disso? Eu já estive lá algumas vezes, no mundo inferior. Eles me disseram que geralmente só existe um, ou nenhum, Conector de Alma a cada geração. Porém, nessa existem dois, e foi aí que ele me disse quem você era. Me passou a missão de buscá-lo, pois apenas um Conector de Alma não é o suficiente para o trabalho. Capisci?

— Eita, o negócio parece ser mesmo sério, ô seu… Espera aí, como é teu nome mesmo?

— Peter Tolgis, ainda não havia me apresentado.

— Estranho, né não? Nunca existiram dois, como é que é o nome desse negócio, Conector de Almas, certo? — Ele fez que sim com a cabeça, eu continuei: – E aí, na única geração que se tem dois Conectores, os dois são brasileiros. É ou não é coincidência?

— Mas eu não sou brasileiro.

— Você é de onde, então?

– Isso não importa agora, vamos ter muito tempo pra conversar. A missão é a seguinte: precisamos ir até o brejo das almas e tirar um poltergeist que está tacando o terror por lá.

– O brejo das almas? Mas o que é isso?

– É o lugar dos indesejados, você vai ver, Érico. Mas basicamente é uma espécie de purgatório onde ficam as almas indesejadas. De algum jeito, um poltergeist entrou lá há um tempo e vem atormentando tanto os pobres rejeitados que eles não conseguem mais sair de lá. Agora o lugar está cheio. Nosso dever é tirar o poltergeist do local, para ele ser esvaziado o mais rápido possível.

– Certo, acho que vou entender melhor esse negócio na prática mesmo. E como chegamos lá?

– Ora, não se faça de bobo, somos conectores de Almas, basta acessarmos o outro mundo assim. – Peter, então, tirou uma mão do bolso e simplesmente abriu uma fenda no meio da rua com o dedo.

Fiquei olhando incrédulo para aquilo enquanto meu mais novo conhecido deu um riso de canto de boca. Quando deu um passo para dentro da fenda, me disse:

– Pelo visto, você tem muito a aprender.

Lembro-me bem de ter sorrido com aquilo; aquele cara realmente parecia legal e disposto a me ensinar tudo sobre esses novos mundos que eu estava prestes a conhecer.

Capa Canção do Menestrel: um conto de Evezel

Redes sociais do autor: Evezel

Página oficial Izyncor: Evezel

Palavras-chaves:
Conto, Evezel, Conector de Almas, dom, médium, espiritualidade, missão, poltergeist

Uma resposta para “O Conector de Almas I”

  1. Adorei o conto. O modo como o protagonista é apresentado, a escrita bem desenvolvida e o sentimento de estar realmente vendo a cena enquanto leio me fez ficar curiosa sobre a continuação. Sinceramente, acredito que esse conto tem tudo para se tornar famoso e ser publicado em um livro (obviamente com mais contos como esse).
    Estou ansiosa pela continuação.

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